© Beatriz Vilela
Ha um ano eu me despedia. Madrugada triste que me deixa com nó na garganta só de lembrar. Deixei amizades importantes, laços que jamais serão quebrados.
Minha querida Girona, cuide bem deles!
“Para cada um de nós, uma cidade existe pelo que significa para nossa mente e nosso coração.
Pulsa em diferentes e simultâneas escalas de tempo e espaço. Vibrantes universos, em aparência paralelos, entre os quais somos a ligação, e nos quais somos personagens e espectadores, objeto e sujeito. Eles ocorrem do lado de fora de nossa janela e do lado de entro de nossa porta.
Com o tempo, a cidade constitui-se, pela depuração das vivências acumuladas, em patrimônio único de suaves esgarçadas lembranças e incômodos resíduos afetivos.
Torna-se cenário de nossas aspirações e frustrações, da banalidade renovada que nos obriga a pensar.
Se a amamos, somos defensores apaixonados de suas qualidades, algumas verdadeiras e outras que lhe atribuímos, indevida, mas generosamente.
Cria-se uma relação íntima e tranquila. Nos apropriamos dela como se seus únicos proprietários fôssemos. Transformamo-nos em seus redescobridores e, a cada passo, colidimos com novos e preciosos indicadores de que alguma coisa lateja, misteriosa, além do óbvio.
Perdoamos suas loucuras, porque somos seus contribuintes, às vezes recatados, outras vezes escandalosos coparticipes da insanidade geral.
A cidade é um suporte de vida, de ocorrências grandiloquentes e mesmice cotidiana. Todas reveladoras do homem.
Esse mesmo homem, pretencioso, controverso, incapaz de conviver. Inventor do sonho, reinventor da morte.”
Luis Humberto.